O petróleo é o novo cigarro

A FGV Energia promoveu no dia 31 de agosto a palestra do primeiro diretor-geral da ANP, David Zylbersztajn, sobre estratégia e desafios para o futuro do setor energético. Durante o evento o convidado apresentou sua visão sobre a geração de energia a partir de seus estudos e de sua experiência no mercado. O evento contou com a presença do atual Diretor Geral da ANP, Décio Oddone, e do também ex-Diretor, John Forman.

Para David, a controversa privatização da Eletrobrás é bastante positiva do ponto de vista de governança, como caminho para a modernidade do sistema e um verdadeiro ganha-ganha para a sociedade brasileira. Para ele, a principal vantagem estará na possibilidade de se pensar no fornecimento de energia que satisfaça o usuário, e, se bem-sucedida, abrirá portas para futuras privatizações, como a da Petrobras. Para ele, a saída para o setor elétrico é a descentralização da produção, na linha de modernidade que está acontecendo no mundo todo: compactação, cogeração, micro geração miniaturização, geração própria a gás e com fontes renováveis, o que inevitavelmente irá acontecer.

Sobre o mercado de petróleo David mencionou que a interrupção dos leilões de áreas de exploração no Brasil fez o país perder uma janela histórica de oportunidade. À época, havia um crescimento econômico do Brasil e do mundo (antes da crise do subprime), havia a percepção do Brasil como atraente do ponto de vista de investimentos, não existia o shale gas, o México ainda tinha seu setor petrolífero fechado, o Irã e o Iraque não haviam voltado a produzir. Se feitos naquela época, as áreas leiloadas estariam começando a produzir agora, dando uma nova e mais dinâmica tônica ao mercado de óleo e gás no Brasil. Ele acrescentou que o modelo de conteúdo local adotado foi irresponsável, levou a um enorme desperdício de dinheiro, à cartelização de segmentos, que, dentre outras coisas agravou a situação complicada que o país vive hoje.

Em termos de futuro o palestrante alertou que o país assumiu compromissos ousados na COP21: redução em 37% na emissão de GEE até 2025, e 43% até 2030; além do aumento do uso de renováveis na matriz, e retomada nos programas de eficiência energética. Entretanto, muito pouco ou quase nada tem sido feito nessa direção. Seja por falta de planejamento, seja por falta de desorganização do setor. Além disso, para ele, as hidroelétricas da Amazônia não acontecerão por questões financeiras e ambientais. Adicionalmente, o IPCC coloca que em 2100 o mundo não consumirá nenhum hidrocarboneto, e que acredita que esse breakthrough para a geração elétrica se dará com a energia solar.  Essa perspectiva deixa uma sensação desconfortável em relação ao pré-sal, uma vez que teremos um enorme manancial que permanecerá inexplorado por falta de uso, sublinhando a visão de perda de uma histórica janela de oportunidade.

A fala de David trouxe colocações isentas, transparentes e muito genuínas sobre a necessidade imperiosa de se planejar os setores, o Estado e o país. Sobre o nível de desorganização político e social que o pais está mergulhado e as consequências de não se pensar o futuro. 

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