Receita para baratear o gás associado

Kenneth Medlock defendeu estímulo ao mercado interno de gás, em palestra na FGV ( Bianca Gens )

Desagrupar capacidade e estruturar e criar competição no transporte de gás são as soluções apontadas pelo Ph. D. em Economia Kenneth B. Medlock III, em entrevista à Brasil Energia Petróleo

Por Gabriela Medeiros

O Brasil precisa criar um ambiente competitivo para ajudar a baratear o gás associado, acredita Kenneth B. Medlock III, Ph.D. em economia. Após palestra na FGV do Rio de Janeiro, onde defendeu a desassociação entre capacidade e estrutura no transporte e o estímulo ao consumo no mercado interno, Kenneth conversou com a Brasil Energia Petróleoe falou, inclusive, sobre a criação de uma regulação para os não convencionais no país: “Este tipo de coisa requer expansão da agência regulatória”, concluiu.

"As palavras estão certas, mas o diabo está nos detalhes. Sempre é assim quando se discute mudanças na regulação, ninguém quer errar por causa de um parágrafo ou de uma frase. Desagrupar a capacidade e a estrutura é um primeiro passo importante, porque assim pode-se oferecer direitos de capacidade e haverá novas empresas no mercado, mesmo que haja monopólio na infraestutura."

Você concorda com a ideia de que é caro produzir o gás do pré-sal?

Entendo de onde vem essa ideia, mas o gás será produzido de qualquer forma porque é associado ao óleo. Não há dutos, estrutura de recolhimento ou processamento para levar o gás à costa, que são coisas caras, mas há ativos que permitirão a utilização delas em longo prazo. Isto já ocorreu no Golfo do México americano. Não há nada particularmente desafiador sobre o Brasil. Um ambiente competitivo desencadearia muitas coisas.

Como criar o ambiente favorável a estes investimentos?

Não falar apenas de políticas para gás e óleo, mas também de políticas industriais e de eletricidade. É necessário criar uma âncora para incentivar os investimentos em infraestrutura: está tudo integrado. Se você quer mudar a natureza do mercado de gás doméstico, é necessário mudar a política energética e, para tanto, é necessário mudar a maneira como as hidrelétricas são usadas. Parte delas devem estar na base, mas há oportunidade para que outras fontes energéticas estejam na base, como as térmicas. Isto cria um cliente âncora para o gás e oportunidades para crescimento na demanda industrial.

O que precisa ainda precisa ser feito para garantir a atração de investidores?

Criar mercado doméstico. O primeiro mercado é sempre o mais próximo, então se o capital internacional reconhecer um mercado local com acesso de baixo custo, cria-se uma boa oportunidade. A arquitetura regulatória na economia brasileira ao redor de energia precisa melhorar, porque isto fornece uma saída local que é atraente. Deste modo, não é necessário desenvolver arquitetura de exportação nem tomar cuidado com o volume produzido, pois é possível distribuir domesticamente e internacionalmente. Isto amplia as oportunidades de mercado, o que significa mais produção, mais liquidez e risco menor.

Qual é a sua opinião sobre a nova Lei do Gás?

As palavras estão certas, mas o diabo está nos detalhes. Sempre é assim quando se discute mudanças na regulação, ninguém quer errar por causa de um parágrafo ou de uma frase. Desagrupar a capacidade e a estrutura é um primeiro passo importante, porque assim pode-se oferecer direitos de capacidade e haverá novas empresas no mercado, mesmo que haja monopólio na infraestutura.

Quais são os benefícios da venda de dutos pela Petrobras?

A estrutura de mercado importa. Se houver monopólio na estrutura de transporte, há preços maiores. Se houver competição no mercado de transporte, garanto que o custo de transporte de gás associado será significativamente menor do que é hoje.

O que o Brasil precisa fazer para regular as atividades não convencionais?

Em termos de regulação, o primeiro passo é educar. O Brasil não tem uma grande história de produção onshore, então isto é completamente novo. No Texas, por exemplo, foi fácil, pois o estado já era um produtor terrestre, então todos estavam acostumados àquela infraestrutura, não houve hesitação por uma nova atividade industrial, é apenas um diferente foco. Os mitos que tendem a se propagar ao redor da relação entre sísmicas e terremotos e de contaminação da água são notáveis.

Como fazer isto?

Onde há shale abundante e os benefícios fiscais são claros para a comunidade, a probabilidade de haver regulações contrárias é menor. Nos Estados Unidos, muitas companhias têm feito reuniões distritais para discutir a relação com a comunidade e isto fica mais fácil quando são demonstrados os benefícios. Inclusive, são levados representantes do governo, não apenas os geólogos das empresas, para dar mais credibilidade às conversas.

Quais são os bons exemplos a serem seguidos neste tipo de regulação?

Nos Estados Unidos, os reguladores de cada estado fazem inspeções nos ativos. É preciso ter a equipe para fazer isto, não apenas porque transmite para o público a ideia de que há supervisão, como também fornece um mecanismo de segurança. Estas coisas requerem expansão da agência regulatória, mas são necessárias.

O Brasil alcançará autossuficiência em gás?

Esta resposta depende totalmente do ambiente regulatório. O país precisa criar regras de mercado que permitam que as forças competitivas atuem. Se isto ocorre, é altamente possível que Brasil se torne autossuficiente ou muito pouco dependente de importações. É importante que decisões não comerciais não prosperem.

Fonte: Brasil Energia