Uma Porta para o Gás

Com terminais de GNL e térmicas, Prumo quer transformar o norte do Rio de Janeiro no principal polo gasífero do Brasil.

Fábio Couto e Matheus Gagliano

Há alguns anos, a cidade de São João da Barra tinha um slogan, hoje em desuso: “o paraíso é aqui”, em alusão às praias e o clima da cidade de aproximadamente 30 mil habitantes, localizada a cerca de 320 quilômetros da capital do Rio de Janeiro e a aproximadamente 280 quilômetros de Vitória. Mas a frase, que deixou de ser usada, pode ser reabilitada pela Prumo Logística, quando se trata de gás natural.

Com planos de oferecer gás abundante a preços competitivos, a ideia é ser um relevante player no segmento. A questão é: o mercado vai correr em direção ao paraíso? Os planos da companhia de transformar o Porto do Açu em um hub de gás, nos moldes do que acontece no Porto de Antuérpia, na Bélgica, tiveram início com a contratação de uma termelétrica de 1,7 GW no leilão A-6 de dezembro passado e com a compra da usina Novo Tempo, que era da Bolognesi, de 1,25 GW.

As duas usinas, que de imediato colocaram a Prumo na condição de player relevante no setor elétrico, têm como principal papel ancorar e criar um mercado de gás natural. O plano da companhia é colocar em pé cerca de 6,4 GW termelétricos, num momento em que se discute a diversificação mais assertiva da matriz energética, diante da alta dependência das hidrelétricas que sofrem em períodos de longa estiagem, como aconteceu até bem pouco tempo.

Os objetivos da empresa, concebida como o braço de logística do ex-empresário Eike Batista, a LLX, hoje gerida pela americana EIG, incluem um terminal de regaseificação com capacidade de até 42 milhões de m³/dia e um complexo industrial que pode abrigar qualquer empresa que utilize o gás em seu processo produtivo.

O modelo é baseado no gás do pré-sal, associado à produção de petróleo, e que tem que ser extraído. Para tal, é preciso formar demanda, segundo explica o presidente da Prumo, José Magela Bernardes. Atualmente, o porto possui área de 130 quilômetros quadrados, com espaço para a instalação do hub, das térmicas, e de um complexo industrial que complementa o plano da companhia.

A maior questão que paira sobre o mercado, diante dos planos da Prumo é saber de onde virá a demanda para consumir todo o gás que deve passar pelo hub norte-fluminense, considerando que a demanda nacional vem se mantendo estacionada nos últimos anos.

A pesquisadora da FGV Larissa Resende, que é especialista em gás natural, salienta que, mesmo com a capacidade atual de regaseificação, o país não conseguiu utilizar sequer 50% do total, ficando, então, a outra metade ociosa.

No caso da Prumo, o plano inicial fará com que a capacidade brasileira praticamente dobre, caso seja efetivado.

Hoje o total de regaseificação do país está na casa dos 41 milhões de m³/dia, de acordo com ela. Em síntese, a viabilidade do hub de gás depende em grande parte da aprovação do PL do Gás pelo Congresso, que dará as bases para o acesso ao compartilhamento de infraestrutura, principalmente a terminais de regaseificação de GNL. “É então fundamental que o PL seja aprovado”, ressalta a especialista da FGV. Magela, da Prumo, concorda. O substitutivo do PL 6.407/13 facilita a movimentação da molécula para qualquer outra região do país e diz que as atuais regras são restritivas para esse intento. Mas a criação do swap no transporte permitiria essa movimentação.

“Resolvendo a parte regulatória adequadamente fica muito mais fácil levar gás do pré-sal. O consumidor vai pagar menos e ter a energia que precisa”, afirma. A solução, explica a sócia-diretora da Exergia, Cynthia Silveira, passa pela cobrança de ICMS dos diferentes estados, hoje com diferentes alíquotas para o transporte do hidrocarboneto.

O gás terá um papel importante para os próximos anos, à medida em que a hidroeletricidade vem perdendo espaço, com a construção de usinas a fio d´água e o avanço das eólicas e solares, intermitentes. “A matriz energética está mudando e vai mudar ainda mais”, avalia Magela. Cyntia Silveira, corrobora com a visão de que o projeto da Prumo se viabiliza diante da necessidade de mais geração térmica. Além da questão das hidrelétricas não poderem mais ter grandes reservatórios, ela lembra que eles ainda não estão plenamente recuperados. E há a ainda a recuperação econômica esperada do país que, se ocorrer, demandará mais energia. “Serão necessárias mais térmicas para dar conta dessa ampliação”, avalia Cyntia, citando indicações do Plano Decenal de Energia (PDE) 2026, que sinaliza com essa fonte para dar conta da demanda de ponta.

Planos antigos

Magela disse que sempre esteve nos planos da Prumo apostar no hub de gás e destacou que as reservas do pré–sal tem grande potencial. A localização geográfica do Porto do Açu favorece projetos como esse. Mas para viabilizar o gás, que é associado ao petróleo, é preciso demanda, e esse será o papel das termelétricas: são parte de um plano para ancorar o consumo. A empresa, assim, assume o papel de player do gás. “Temos de equacionar a demanda”, destaca Magela.

Várias alternativas foram discutidas para dar destino ao insumo, e uma delas é criar soluções de demandas variáveis, como as térmicas vinculadas ao terminal GNL. “O final da equação não é a térmica. É um grande consumidor de gás, é parte de um plano para trazer o gás”. Mas o plano da Prumo não se limita ao hub. Como o Gasene se localiza próximo do porto, a aproximadamente 40 quilômetros de distância, a companhia enxerga oportunidades com essa infraestrutura, ao poder comercializar o insumo para consumidores no Nordeste.

Para Magela, o gás do pré-sal pode ser mais competitivo do que o GNL, abrindo a chance para o crescimento industrial nordestino. O executivo salienta que ainda não existem negociações da Prumo com distribuidoras de gás da região, mas é uma ideia que merece ser considerada.

Entretanto, colocar os 6,4 GW em pé dependerá dos futuros leilões de geração. Uma das usinas do parque termelétrico é a GNA I, antiga Novo Tempo, que era da Bolognesi. De acordo com o executivo, atingir a meta considerava o cenário de aquisição de projetos, além de desenvolver empreendimentos do zero. Magela conta que a Prumo analisou os dois projetos da Bolognesi, com dificuldades de implementá-los. Só que, diante dos desafios para implementar as duas usinas dentro do cronograma, a empresa escolheu um deles – Novo Tempo.

A usina Rio Grande entrou em negociações com a americana New Fortress, ainda não concluídas, e está na mira da Aneel, que pretende revogar a outorga, por não enxergar a concretização do acordo. Segundo Magela, apesar do tempo curto, o executivo afirmou que é viável pôr a usina em operação a tempo do início do suprimento, em janeiro de 2021.

“O projeto da Bolognesi é bastante desafiador”, reconhece. Neste caso, relata, ganha importância a adesão de sócios como a Siemens, responsável pelo EPC da térmica. Na transmissão, Magela explicou que já existem duas linhas, uma de 138 kV e outra de 345 kV, sendo esta, parte da primeira térmica a ser construída. Ela será conectada à subestação de Campos, para daí ser distribuída à rede, o que deve ocorrer antes de 2021.

Para escoar a energia no Açu, o professor da Coppe/UFRJ e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim avalia que pode surgir a necessidade de uma expansão do sistema de transmissão.

Mas esse pode ser um passo já dado: no fim do ano passado, a EPE divulgou um estudo sobre a expansão da transmissão entre Rio de Janeiro e Espírito Santo, justamente a região sob influência do complexo portuário.

GNL dobra no país. Em paralelo às térmicas, o terminal GNL já tem a licença prévia emitida, faltando apenas a licença de instalação. Porém, após concluído, o terminal ainda não irá operar com sua capacidade plena, apenas com o volume de regas necessário à operação das duas térmicas do hub.

Magela estima que deverá funcionar inicialmente com 14 milhões de m³/dia, aproximadamente. Para Larissa, a criação de uma política industrial e energética é importante para ajudar a impedir que parte da capacidade de regaseificação fique ociosa. “Será preciso um esforço grande para fomentar o uso do GNL na região”, ressalta a especialista da FGV, para quem a chegada de mais indústrias no complexo será um fator facilitador para viabilizar o hub gasífero.

Tolmasquim avalia que é necessário fortalecer o consumo industrial como destino para o gás que chegará pelo hub porque as empresas é que serão as responsáveis pelo consumo quando as térmicas não estiverem sendo despachadas. Isso porque o hidrocaboneto é associado ao petróleo e não pode deixar de ser consumido. Tolmasquim também salienta que as térmicas tendem a ficar ociosas, dependendo da inflexibilidade adotada para o parque térmico. Daí a importância das indústrias próximas consumirem o gás, servindo de fiel da balança quando não houver para fins de geração.

“Precisa de um mercado contínuo e independente das térmicas. É importante então que tenham indústrias que consumam de forma permanente”, avalia. Outro destino do gás é o uso por indústrias que podem se instalar no complexo do porto. A demanda pode ser pelo gás natural, mesmo, ou por subprodutos, como o gás liquefeito do petróleo (GLP) e etano, atraindo novas empresas para o parque. Além do gás, o Porto do Açu também está aberto a outras possibilidades logísticas (até por ter no seu DNA o papel de operador logístico). A chegada das indústrias pode ganhar força pelo fato do porto ter se tornado uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), área de livre comércio voltada a empresas destinadas à exportação.

Além da ZPE, a Prumo conta com a entrada do Porto da Antuérpia como parceira. A modelagem da ZPE, o hub de gás e o complexo industrial é o caminho da Prumo para ser um novo Porto de Antuérpia, avalia Magela. Hoje, 4 mil pessoas trabalham na região, que fica entre as bacias de Campos e do Espírito Santo. São João da Barra é uma cidade pequena, que tem na pesca, na agricultura e, agora no Porto, as principais atividades industriais (além da fábrica de conhaque homônima à cidade, pertencente à família Aquino). A cidade é vizinha a Campos e o porto está a pouco mais de 250 quilômetros de Vitória.

Entre tantos outros negócios, há a possibilidade, ainda no campo das ideias, de ingressar no segmento de energias renováveis. Magela vê espaço para construção de usinas solares ou eólicas na região – na vizinha São Francisco do Itapaboana, está localizado o parque eólico Gargaú, que pertence à Ômega Energia desde 2012 e é a primeira usina eólica do Sudeste, contratada via Proinfa e em operação desde 2010.

Segundo Magela, essa ainda é uma ideia em fase embrionária. “É preciso fazer estudo de medição do vento que prove a viabilidade de um parque eólico. Estamos de cabeça aberta a todo tipo de negócios”, afirma. Neste caso, a viabilização de eólicas pela Prumo ou outro agente é boa para a indústria eólica. No porto é possível instalar, por exemplo, filiais de fabricantes de pás dentro da ZPE, que facilitaria o envio dos equipamentos para outras áreas do país por meio de navegação de cabotagem, ou mesmo para exportação. As novas usinas colocaram a Prumo numa surpreendente (para o mercado) condição.

Em pouco tempo, a empresa se tornou um player relevante na geração térmica. Mas a percepção de Magela é de que os demais agentes passaram a ver a companhia com respeito, diante do que já se fez até agora. Se todos os planos derem certo, se o gás do pré-sal for competitivo e a demanda aumentar exponenciamente no país, provavelmente a Prumo vai se apropriar do antigo slogan de São João da Barra e dizer para o mercado que o paraíso do gás é lá.

Por dentro do Porto do Açu

Localizado em uma região considerada estratégica, o Porto do Açu tem uma área total de 130 km² e com cerca de 1 mil empresas privadas instaladas no complexo portuário, com potencial de crescimento para os próximos anos. O complexo é controlado pela Prumo, que tem como acionistas a EIG, com participação de 80,2% no negócio; a Mubadala, com 6,9%, enquanto que demais acionistas minoritários detêm outros 12,9% do capital da empresa.

Dentro da área do porto, há o projeto das termelétricas, o terminal de GNL e uma unidade de processamento de gás natural (UPGN).

As térmicas e o terminal começaram a ser viabilizados. O projeto do hub de gás começou a ganhar forma com a divulgação, em agosto do ano passado, da assinatura de um acordo de investimentos com a Siemens Energy e com a Siemens Financial Services, que estabelecia condições para o desenvolvimento da térmica GNA I (ex-Novo Tempo, adquirida junto à Bolognesi) e o projeto do terminal GNL, com capacidade para importar gás natural para a UTE, além de futuros projetos do Porto do Açu.

Já perto do fim do ano, a Prumo conseguiu obter da Aneel a anuência da transferência da outorga da Novo Tempo, bem como a mudança de sua localização geográfica, que deixa de ser construída em Pernambuco para o complexo portuário. Poucas semanas depois, a empresa adquiriu a térmica GNA II, no leilão A-6. Com capacidade instalada de 1.673 MW, a usina venderá 1.450 MW médios através de 25 contratos de comercialização de energia, pelo valor de referência de R$ 213,91 por MWh, ao longo de um período de 25 anos. Somadas, as duas térmicas têm uma capacidade instalada de aproximadamente 2,9 GW.

Fonte: Brasil Energia Online - RJ