Aquecimento global amplia as perspectivas para biocombustíveis

Por Gleise de Castro

Graças à utilização de etanol, o Brasil evitou emitir no ano passado 55,1 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2 eq), ou seja, gases de efeito- estufa (GEE), e outros 9,2 milhões de toneladas com o uso de biodiesel, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia. Esses números poderiam ser ainda maiores se não fosse a queda de 6,7% na produção total de etanol, que atingiu 28 bilhões de litros em 2016, e de 3% na produção de biodiesel, para 3,8 bilhões de litros.

A queda na produção de etanol deve-se à alta dos preços do açúcar no mercado internacional, levando as usinas a priorizar a produção da commodity, e ao fato de que a relação entre os preços do etanol e da gasolina manteve-se desfavorável ao etanol na maior parte do ano em vários Estados. No caso do biodiesel, o principal motivo para a redução foi a diminuição no consumo, causada pela recessão.

Fontes de energia renováveis, obtidos a partir de biomassas de compostos orgânicos vegetais ou animais, os biocombustíveis contam com boas perspectivas de mercado, ante a necessidade de redução dos danos causados pelo aquecimento global. Eles são utilizados na forma pura ou misturados aos combustíveis fósseis. No Brasil, o etanol é misturado à gasolina, enquanto o biodiesel é adicionado ao diesel tradicional.

Com o avanço da tecnologia, as perspectivas são de redução de custo, decorrente de maior produtividade das principais matérias-primas da cana, no caso do álcool, que se beneficia do melhoramento genético, e a soja, no caso do biodiesel. Surge também uma nova geração de biocombustíveis, como o etanol de segunda geração, enquanto boa parte das usinas do país passa por adaptações para utilizar, na entressafra da cana, o milho, hoje abundante e mais barato no Centro-Oeste. "Com as usinas flex, a produtividade do etanol aumenta, já que elas não ficam mais ociosas na entressafra da cana", diz Tamar Roitman, pesquisadora da FGV Energia.

A principal matéria-prima usada para a produção de biodiesel no Brasil é o óleo de soja, com participação de 75,7% na cesta de insumos, seguido pelo sebo bovino, com 15,4%. A capacidade instalada de processamento de biodiesel no país atingiu 7,5 bilhões de litros em dezembro de 2016, volume 3% superior a dezembro de 2015, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Outros biocombustíveis em desenvolvimento são o diesel renovável, ou óleo vegetal hidratado (HVO), concorrente do biodiesel, e o biocombustível de aviação, ou bioquerosene. Ambos ainda apresentam custo elevado, segundo Tamar. De acordo com ela, os rejeitos da produção de etanol têm grande potencial para produção de biogás e biometano, hoje produzidos a partir de diversas biomassas, esterco e lixo orgânico.

Mas a grande aposta do setor é o etanol de segunda geração (E2G), que usa o bagaço e a palha da cana que sobram da produção do etanol de primeira geração. O resultado previsto é aumento de 50% na produção final de etanol. No mundo todo, a tecnologia é adotada por cinco empresas, duas das quais no Brasil, a GranBio, em sua planta Bioflex-I, em Alagoas, com capacidade nominal de 82 milhões de litros, e a Raízen, em sua usina de Piracicaba (SP), com capacidade de 42 milhões de litros.

A produção do E2G, no entanto, ainda não deslanchou, devido a gargalos tecnológicos e mecânicos enfrentados por todas as empresas. Mas quando eles forem superados, o Brasil terá a vantagem de um custo final mais baixo, já que a matéria prima aqui é mais barata.

Fonte: Valor Econômico