Gás nacional precisa de previsibilidade antes de autossuficiência

Para pesquisadora Fernanda Delgado, da FGV Energia, país pode ter que competir com o gás argentino

Por Matheus Gagliano

O Brasil tem potencial para ser autossuficiente em gás natural, como declarou esta semana o ministro de Minas e Energia, Fernando Bezerra Coelho Filho. Mas se isso realmente irá acontecer a partir de 2021, como disse o ministro, é outra história. Antes, o país precisa desenvolver o mercado e dar uma destinação ao gás que irá produzir, senão não terá investidor interessado em colocar dinheiro nesse segmento. Além disso, poderá concorrer no futuro com o gás argentino. Tudo o que o país precisa, em um primeiro momento, é previsibilidade.

Para a pesquisadora da FGV Energia, Fernanda Delgado, ainda existem muitas interrogações quanto ao cenário nacional do gás, passando pela questão do acesso aos gasodutos e o custo do gás proveniente do pré-sal. Ela ressaltou que ainda existem questões envolvendo esse gás, relacionadas à qualidade, que tem alto teor de CO2, além de questões econômicas: como é associado, depende de investimentos em exploração e produção nos campos offshore.

“Como o preço do petróleo está baixo, o setor do petróleo reduz logo os investimentos em E&P”, explicou ela à Brasil Energia.

A pesquisadora ressaltou que é preciso mostrar ao investidor que existe uma destinação concreta para o gás natural, como o desenvolvimento do gás-to-wire, uso do insumo para operação de termelétricas na base, uso automotivo. Ou seja, desenvolver algum tipo de monetização que faça com que os bancos possam apoiar os investidores e assim fomentar a destinação do gás.

E tudo depende da maturação dos investimentos para tornar essa autossuficiência realidade. Para Fernanda, é difícil que seja cumprido no prazo previsto pelo ministro. Ela ressaltou ainda que essa autossuficiência precisa ser algo real e não somente nominal, com a oferta atendendo a demanda pura e simples. A pesquisadora lembra que, embora tenha atingido a curva de autossuficiência em petróleo em 2006, o país ainda precisa importar volume de petróleo para dar conta de sua demanda interna.

Apesar disso, já existem alguns indicativos de que o Brasil fará seu dever de casa, como as diretrizes para o leilão A-6, divulgada por meio da portaria 318, do MME, no qual o governo abre a possibilidade de que as térmicas a gás, contratadas no certame possam gerar na base, graças à possibilidade de declaração sazonal de inflexibilidade, por parte do empreendedor.

Ela alerta que o país precisa fazer o trabalho que precisa ser feito, senão poderá ter de concorrer com o gás argentino, já que  país vem desenvolvendo o shale gás do campo de Vaca Muerta, o que leva a um alto potencial de excedente de gás no país vizinho nos próximos anos.

Fonte: Brasil Energia