"Só resta esperar aumentos na gasolina e no diesel"

Valorização da commodity ajudou União a arrecadar R$ 6,8 bilhão em leilão na sexta

O petróleo brent, referência para a Petrobras, se consolidou na semana passada com preços acima de US$ 80 o barril, o que não ocorria desde 2014. A escalada mais recente de valorização é relacionada a tensões geopolíticas, avalia a pesquisadora da FGV Energia, Fernanda Delgado. Para os motoristas, as notícias não são animadoras.

 

A tendência é o petróleo ficar acima dos US$ 80?

Os preços do petróleo no mercado internacional têm uma tendência de alta que já estava prevista até pelo menos o IPO (abertura de capital) da Saudi Aramco (maior petrolífera do mundo), que seria em 2018, passou para 2019 e está sem data. Já havia uma expectativa de aumento pelo corte de produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e por todas as questões geopolíticas. A novidade de uns dias para cá foi este embargo mais forte dos EUA em relação ao Irã. Então o Irã fez a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz. O mercado do petróleo ficou em polvorosa. Por ali passa quase 20% do que é transacionado no mundo inteiro. Esse agitamento no mercado jogou os preços para cima, mais uma vez.

Então são mais questão ligadas à oferta do que à demanda?

São incertezas relacionadas à oferta. O Irã já tinha sofrido este reembargo dos EUA e agora ele vem com uma sanção um pouco mais forte, inclusive com ameaça de um conflito militar. Isso deixou as coisas mais complicadas de uns dias para cá. Até então, antes desse reembargo, o Reino Unido disse que continuaria comprando do Irã, a China também, mas quando os EUA colocam uma mão mais pesada, com ameaça de militarização na área de Ormuz, os preços são jogados para cima, automaticamente.

É possível chegar a US$ 100?

Há alguns meses não diria isso, mas agora o mundo do petróleo está muito incerto. Havia sobreoferta, muita gente produzindo e entrou o gás de xisto americano, que levou a uma mudança geopolítica. Os EUA deixaram de comprar cerca de 5 milhões de barris por dia do mercado internacional a partir de 2014. Isso gerou sobreoferta. O mercado passou a ser regido por questões geopolíticas. É a invasão à Síria, o embargo ao Irã, o corte da produção da Opep e a manipulação dos preços por Opep e Rússia, também jogando as cotações para cima. Então, não é impossível que o preço atinja índices maiores.

Resta se conformar em pagar uma gasolina mais cara?

Apesar de o câmbio ter arrefecido um pouco, por outro lado, como o preço no mercado continua em alta, para nós, consumidores, só resta esperar aumentos na gasolina e no diesel, apesar de agora com forças mais controladoras por parte da Petrobras. Mas tudo, no fim, será repassado, sim.

E o impacto do preço no leilão de áreas do pré-sal na sexta-feira?

Quanto mais alto o preço do petróleo, melhor para a gente, no sentido de nação petrolífera, que produz e exporta. Isso se reflete no sucesso destas rodadas. Isso mostra o quanto o mercado está esperançoso em relação ao preço, que se mantenha ao menos em US$ 80 e não arrefeça. Para nossas exportações de petróleo cru, é interessante. 

O leilão foi dominado por estrangeiros. Em meio às eleições, mostra confiança no país?

Certamente. Desde o final de 2016, os órgãos da área têm feito o dever de casa em prol de uma mercado mais aberto, para atrair mais empresas, em busca de um cenário mais competitivo. Isso tem sido bem visto e validado pelo mercado internacional. Com empresas que já estavam aqui fazendo ofertas para mais área, e novas chegando, operando no pré-sal, o que é extremamente interessante do ponto de vista da concorrência.

E isso pode ajudar no reaquecimento da economia?

Tem um efeito reverberador grande na economia, tanto diretamente no setor, quanto de forma indireta. Hoje, o setor de óleo e gás representa 4% do PIB nacional e gera 1 milhão de empregos. Então, estas rodadas, desde o ano passado, vão começar a dar reflexo para o mercado de equipamentos e serviços daqui a dois anos. Primeiro são feitos levantamentos e os licenciamentos. Há uma inércia até ter atividade econômica associada a estas áreas. E o mais importante para a gente, a geração de empregos.

Fonte: Zero Hora - Por Caio Cigana