Gás Sudoeste começa a sair do papel

Por Matheus Gagliano - Brasil Energia Online

Considerado um dos mais importantes projetos em desenvolvimento no interior da Bahia, gasoduto de 306 km já iniciou as obras de implantação.

Após cinco anos de espera, a Bahia começa a ver sair do papel o projeto de abastecimento de gás natural ao interior do estado. Isto porque as obras de implantação do primeiro trecho do Gás Sudoeste já começaram. Considerado um dos maiores dutos do interior a ser construídos no país - a maior parte da malha de distribuição de gás natural encontra-se na costa brasileira -, o empreendimento surge como uma importante fonte de abastecimento não somente para residências e comércios, mas também para atender à demanda proveniente da indústria da região, que, atualmente, utiliza o óleo diesel em seu processo de produção.

Com investimento total previsto de R$ 433,2 milhões, o Gás Sudoeste terá extensão total de 306 km, ligará municípios que vão de Ipiaú a Brumado e será construído em três fases. No primeiro trecho, de 72 km e que começou a ser construído em agosto, serão investidos R$ 79,14 milhões para atender os municípios de Ipiaú, Itagibá, Aiquara, Itagi e Jequié. O segundo trecho, de 85,41 km, receberá investimento de R$ 118,64 milhões e passará por Jequié, Lafaiete Coutinho, Maracás e Iramaia. Já a terceira fase do empreendimento, de 135 km, receberá R$ 234,70 milhões e atenderá os municípios de Iramaia, Barra da Estiva, Contendas do Sincorá, Tanhaçu, Aracatu e Brumado.

A conclusão do gasoduto como um todo está prevista para 2021 e tem um mercado de atendimento estimado em 460 mil m3/dia. Há ainda investimentos de R$ 3,81 milhões na construção da estação de transferência de custódia do gás em Itagibá, que está inserida na terceira etapa da obra.

O empreendimento terá papel fundamental no abastecimento de indústrias que existem na região, principalmente nos ramos de alimentação e têxtil. Isso sem contar com o enorme potencial de demanda de outras classes consumidoras, como a residencial, comercial e automotiva, com a chegada do gás canalizado. “Na segunda etapa, por exemplo, o duto passará a 40 km de distância do centro urbano de Maracás, onde atenderá um cliente âncora, com um consumo estimado em 100 mil m3/dia”, diz o presidente da Bahiagás, Luiz Gavazza, sem revelar o nome do cliente por questões de confidencialidade do contrato.

Entretanto, o Gás Sudoeste não deve se restringir somente aos municípios por onde passará – no total, o gasoduto cortará 12 municípios no interior da Bahia, com impactos em 15 cidades. Um exemplo é a cidade de Caetité, que fica a 110 km de distância de Brumado, ponta final do duto. Estão localizadas lá empresas de mineração, inclusive uma unidade de extração de urânio. Próximo de Brumado (110 km de distância) também está Vitória da Conquista, o terceiro maior centro urbano da Bahia. A cidade conta com estabelecimentos comerciais e outros empreendimentos que podem ser abastecidos pelo gás proveniente do gasoduto, como hotéis e hospitais. Para Caetité e Vitória da Conquista, há a possibilidade de abastecimento com o gás natural comprimido (GNC), por meio de carretas transportadoras do combustível abastecidas na ponta final do duto de distribuição. Isso só deve acontecer após o término da obra, uma vez que a venda de GNC só se torna economicamente viável para distâncias de até 150 km. Acima disso, o transporte de gás é feito em contêineres com gás natural liquefeito (GNL).

A construção do Gás Sudoeste começou a ser discutida há pelo menos cinco anos, com a proposta de interligar o Recôncavo Baiano ao extremo-sul do estado, com city gates em Mucuri, Eunápolis e Itabuna e, assim, descentralizar o desenvolvimento econômico da Bahia, muito concentrado em Salvador e na região metropolitana da cidade.

Para concretizar a obra, a Bahiagás lançou editais para contratação de diversos serviços. No total, foram contratadas quatro empresas, mas o serviço principal, de montagem e construção do duto em si, ficou com a Elecnor, pelo valor de R$ 44,6 milhões. A construtora afirma que a construção do duto terá alguns desafios a vencer, como a logística para execução e a grande quantidade de desmonte de rocha no traçado do duto. Para isso, trabalha com um planejamento detalhado de cada atividade a ser executada com o dimensionamento de equipamentos adequados, mobilização de profissionais e relacionamento estreito com a comunidade.

Resultados no longo prazo

O coordenador do Grupo de Trabalho para Assuntos de Petróleo e Gás da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Roberto Fiamenghi, considera o Gás Sudoeste importante para a região, onde estão situadas mineradoras que poderão ancorar a demanda de gás natural proveniente do gasoduto. Entretanto, mesmo com essa demanda garantida, os primeiros anos de operação ainda serão de oferta maior.

“O projeto será de grande importância para a região, mas nos primeiros anos de operação, a tendência é que a oferta seja maior do que a demanda, por ser um projeto de maturação maior na comparação com redes menores”, explica.

De toda forma, a chegada do gás natural às indústrias da região será benéfica do ponto de vista financeiro. O coordenador diz que, atualmente, 20% dos custos das fábricas são com a aquisição de combustível - óleo diesel em sua maioria, que é mais caro. A conversão para o gás poderá representar, para essas companhias, redução de 30% a 40% nos gastos com combustíveis. Além disso, com o cenário de disponibilidade de um combustível mais barato, o coordenador da Fieb acredita que mais empresas poderão aportar na região, contribuindo para equilibrar a relação entre oferta e demanda proporcionada pela chegada do gás.

Já para a pesquisadora do Centro de Estudos em Energia da Fundação Getulio Vargas (FGV Energia), Larissa Resende, a questão do equilíbrio da oferta e demanda se dará logo nos primeiros anos de operação, pois o fornecimento estará garantido por meio de contratos firmados entre a distribuidora e os supridores.

“A oferta virá, principalmente, de campos maduros das bacias do Recôncavo (onshore) e Camamu (offshore). Além disso, o estado baiano conta com um terminal de regaseificação de GNL, que ajudará a completar a oferta quando for necessário”, esclarece. Outra possibilidade é a contratação de gás no mercado spot para períodos em que houver maior procura pelo produto. Larissa acrescenta que ainda há o gasoduto do Sudeste, o Gasene, que pode ser uma opção para ajudar a equilibrar a oferta nesse início de operação do Gás Sudoeste.

Carência de gasodutos

Apesar de toda a expectativa em torno do Gás Sudoeste, o país ainda possui uma rede escassa de transporte de gás natural, o que dificulta o surgimento de mais demanda pelo produto e, consequentemente, a construção de mais redes de distribuição. “O cenário brasileiro é bem diferente do dos Estados Unidos, onde o mercado se desenvolveu mais rápido. Mesmo com a entrada do Gasene e do Gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol), a malha brasileira ainda é considerada mínima se comparada à de outros países”, avalia Larissa.

Atualmente, o Brasil possui um total de 9,4 mil km de dutos de transporte espalhados por todo o território nacional, sendo a grande maioria concentrada na costa. Na Argentina, por exemplo, são 15 mil km. A maior rede do mundo é a dos Estados Unidos, que chega a 490 mil km. Pelo lado da distribuição, das 5.570 cidades brasileiras, apenas 470 possuem o serviço. Quando se fala do segmento residencial, apenas 3 milhões possuem gás canalizado, segundo dados da FGV.

Interiorização: desafios a vencer

A interiorização do gás natural ainda enfrenta uma série de obstáculos. O principal deles está na regulação, que traz limitações à expansão das distribuidoras de gás. Um gasoduto de distribuição, por exemplo, não pode, por força da lei, atravessar dois estados, tendo, então, que ser obrigatoriamente um gasoduto de transporte, o que tira da alçada das distribuidoras a custódia do gás a ser distribuído.

Segundo o gerente de Competitividade da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Marcelo Mendonça, a legislação atual dá margem a situações peculiares dentro do mercado de gás brasileiro. Ele cita o polo industrial de Pernambuco, distante 20 km do duto da Copergás. No entanto, sua posição geográfica o deixa mais próximo do duto da PBGás, na Paraíba, tornando economicamente mais viável o atendimento pela companhia paraibana. Pela lei, no entanto, como a distribuição é de competência de cada estado, o conjunto industrial precisa atravessar 20 km para usar o gás da distribuidora local e não o que está mais perto.

“É necessário enfrentar essa questão, colocando quais critérios permitiriam interligar a distribuição a outros estados para criar condições de atendimento a essas situações específicas. Isso ajudaria a expandir a distribuição”, esclarece.

Para destravar esse imbróglio, o gerente argumenta que é necessário promover a atratividade dos dutos de transporte estimulando a expansão, até que se tornem sustentáveis. Um ponto fundamental é a proposta do Dutogás, que estava inserida na Medida Provisória 814 (que tratava da privatização da Eletrobras) e que previa destinar 20% de recursos do fundo social do pré-sal para custear a expansão de gasodutos de transporte no país. A MP acabou ficando de lado pelo governo, mas o Dutogás pode ressuscitar dentro do PL do Gás, que está sendo analisado pelo relator do projeto, deputado Marcelo Squassoni (PRB-SP).

Mendonça diz que viabilizar a capacidade de transporte de gás permitirá também ampliar a utilização do gás natural, gerando mais royalties e recursos, já que menos gás será reinjetado nos poços de produção e uma fatia maior será disponibilizada ao mercado consumidor. Com isso, a venda do combustível recomporia os 20% previstos pela medida provisória revogada para bancar a expansão.

Outra medida que pode ajudar a destravar a expansão do transporte é a criação de consumidores âncoras. Hoje, novos projetos têm dificuldades de sair do papel por conta da falta de um consumidor para ancorar a demanda, como termelétricas, por exemplo, que demandam um grande volume de gás natural, ao lado do segmento industrial.

Como é difícil implantar uma térmica e nem todos os municípios possuem um parque industrial robusto, outras aplicações precisam ser desenvolvidas para puxar o consumo. Nesse sentido, Mendonça cita o uso em veículos, por meio do gás natural veicular (GNV), como catalisador do desenvolvimento da malha no interior.