GNL tem oferta mundial crescente, mas Brasil não consegue aproveitar tendência

Por Matheus Gagliano para o site Brasil Energia

A oferta crescente de gás natural liquefeito (GNL) no mundo tem contribuído para a redução dos preços desse tipo de produto. O Brasil poderia estar aproveitando essa tendência de preços mais baixos, se não esbarrasse na falta de andamento do projeto de lei que cria um novo marco legal para o gás – o projeto permanece parado no Congresso Nacional à espera de uma decisão.

O estudo da FGV Energia, intitulado “A dialética do mercado do gás natural brasileiro: entre a falta de competitividade e a perspectiva mundial de GNL”, mostra que a produção de gás liquefeito no mundo vem crescendo a uma taxa de 6,6% ao ano desde 2000, devido a investimentos em novas unidades de liquefação no Catar, na Austrália e nos Estados Unidos.

Segundo Larissa Resende, pesquisadora e uma das autoras do estudo, a falta do novo marco, que prevê a entrada de novos supridores que poderiam vender no mercado brasileiro o GNL, é um obstáculo para que o Brasil possa ter uma fatia dessa oferta crescente. Além disso, a dificuldade em abrir o mercado para novos agentes é outro entrave ao andamento de projetos de terminais de regaseificação que hoje estão parados.

Parte deles está na região Sul do país, que, hoje, é praticamente dependente da oferta importada da Bolívia. São três no Rio Grande do Sul, três em Santa Catarina e outros dois no Paraná. Entre eles, está o terminal do município de Rio Grande, com 14 milhões de m³/dia, vinculado à termelétrica do grupo Bolognesi, cuja outorga está suspensa pela Aneel.

Dessa forma, o Brasil necessita de outra fonte supridora de gás para dar conta de sua demanda e o GNL tem a flexibilidade necessária para complementar a oferta e, também, o aumento esperado de carga das termelétricas, com o avanço das renováveis. As térmicas a gás são consideradas fundamentais para complementar a geração das eólicas e das unidades fotovoltaicas.

Outro fator que pode beneficiar a expansão do gás no país é a tendência de construção de novas hidrelétricas a fio d’água, sem reservatório. O estudo aponta que, entre 2014 e 2019, 99% da energia contratada de novos empreendimentos hidrelétricos vêm de usinas sem reservatório, estando, portanto, mais sujeitas à variabilidade do regime hidrológico dos rios.

Além de abastecer as térmicas, parte do gás excedente poderia ser injetado nos mercados locais, mas a pesquisadora salienta que, sem a regulação do compartilhamento da infraestrutura de terminais e de gasodutos de transporte, não há como escoar, de forma adequada, esse excedente.