Pesquisadora da FGV ENERGIA analisa relato da ANP sobre futura falha de abastecimento no Brasil

A pesquisadora da FGV Energia Fernanda Delgado concorda com a previsão da ANP – www.anp.gov.br, divulgada ontem, de que o país passará por problemas no abastecimento de combustíveis em cinco anos, caso não sejam feitos novos investimentos no setor de refino e abastecimento. De acordo com a especialista, o país segue o exemplo de outros com menor nível de desenvolvimento, como a Nigéria e a Angola, que por falta de capacidade de refino exportam o cru e importam combustíveis derivados, de maior valor agregado.

A especialista lembra que a importação de gasolina no Brasil passou de 240 milhões litros em fevereiro de 2017 para 419 milhões de litros, e  os dados de maio deverão confirmar esse patamar. Outro problema apontado por Fernanda Delgado é no comércio de diesel. “As importações foram de 564 milhões de litros em fevereiro para 811 milhões em abril. E em maio, deve  chegar a 1 bilhão de litros. Em contrapartida, o Brasil exportou cerca de 1,63 milhão de barris por dia de petróleo cru em fevereiro de 2017, estabelecendo um novo recorde pelo segundo mês consecutivo. Ou seja, exportamos o óleo cru e importamos o derivado. Importamos um produto com maior valor agregado”, explica a pesquisadora da FGV Energia.

Como reverter esse quadro?

Fernanda Delgado cita que o Brasil possui um parque de refino com dez refinarias e que a capacidade instalada de processamento está em torno de 2 milhões de barris por dia. Números  menores do que a produção nacional –2,6 milhões de barris diários.  A pesquisadora adverte que os últimos investimentos substanciais em refino no Brasil foram feitos no governo militar. Segundo ela, de lá pra cá, alguma capacidade foi agregada, sem contudo que houvesse um planejamento de governo sobre o crescimento da economia do país e, por conseguinte, um aumento da demanda por derivados.

“Adicionalmente, as refinarias que constavam no Planejamento Estratégico da Petrobras para o Rio de Janeiro e o Nordeste não foram adiante e, em alguma medida, as podemos considerar como canceladas. Vale mencionar também que está no plano da Petrobras o desinvestimento no setor de dowstream e o que isso vai representar para o processamento de derivados do país, ainda não sabemos”, esclarece a especialista.

Fernanda Delgado acredita que para reverter esse quadro é imperativo investir. “Tem que ampliar o parque de refino e adequá-lo às novas correntes que estamos produzindo, de forma a reduzir a dependência do processamento externo”, sugere.

Fonte: Jornal da Construção Civil